Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
Publicado em 22 de setembro de 2025
Um novo golpe tem se espalhado pelo mundo e já afeta pequenos negócios de diferentes setores: criminosos ameaçam inundar empresas com avaliações negativas falsas em plataformas como o Google Maps, a menos que recebam pagamento para não publicar ou remover os comentários.
A fraude atinge especialmente empreendimentos locais que dependem fortemente da reputação online — como restaurantes, oficinas, empresas de mudanças e prestadores de serviços domésticos. Em alguns casos, um perfil que mantinha nota máxima foi derrubado em dias, prejudicando diretamente a receita e a credibilidade do negócio. Os golpistas operam internacionalmente, muitas vezes a partir de países como Paquistão e Bangladesh, usando WhatsApp para contato direto. Pedem quantias entre US$ 100 e US$ 200 para “resolver o problema”, transformando o sistema de avaliações em uma ferramenta de chantagem.
O impacto é devastador: pequenas empresas que demoraram anos para construir uma reputação digital podem perder clientes rapidamente. O Google e outras plataformas até removem centenas de milhões de avaliações falsas todos os anos, mas muitas ainda passam despercebidas. O avanço da inteligência artificial só agrava o cenário, pois facilita a criação de comentários aparentemente reais em grande escala.
Esse golpe também escancara a fragilidade da autorregulação das big techs. Nos Estados Unidos, a FTC criou regras contra reviews falsos em 2024, mas o foco está em empresas que compram comentários positivos, e não em golpes de extorsão. Além disso, a proteção jurídica da Seção 230 nos EUA e legislações similares em outros países deixam as plataformas praticamente imunes a responsabilidades diretas.
No Brasil, no entanto, o ordenamento jurídico oferece ferramentas relevantes para enfrentar o problema. O Código de Defesa do Consumidor (CDC) estabelece a responsabilidade objetiva de empresas que intermediam serviços, quando falham em zelar pela segurança e confiabilidade da relação de consumo. Isso abre espaço para que pequenos negócios prejudicados processem plataformas digitais por danos morais e materiais decorrentes de omissão no combate a avaliações fraudulentas.
O Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014) também é fundamental. Ele garante que plataformas devem retirar conteúdos ofensivos mediante ordem judicial e reforça o dever de colaborar com investigações. Se uma empresa demonstra que as reviews falsas causaram prejuízo direto e que a plataforma não adotou medidas adequadas após ser notificada, pode buscar reparação judicial.
Além disso, dependendo da conduta, os golpistas podem responder criminalmente por extorsão (art. 158 do Código Penal), crime com pena de 4 a 10 anos de reclusão, além de multa. O compartilhamento em massa de reviews falsos ainda pode caracterizar crimes de concorrência desleal e até falsidade ideológica, dependendo do contexto.
A extorsão por reviews falsos mostra como a economia digital é vulnerável quando a confiança é manipulada. Pequenos empreendedores ficam sem ferramentas adequadas de defesa, enquanto consumidores correm o risco de tomar decisões baseadas em informações fraudulentas. É por isso que especialistas defendem não apenas monitoramento ativo, mas também uso estratégico do direito para responsabilizar golpistas e pressionar plataformas a criarem mecanismos mais eficazes de proteção.
O alerta é claro: proteger a reputação digital deve ser prioridade estratégica para pequenas empresas, seja com monitoramento, denúncia rápida de conteúdos suspeitos ou medidas judiciais para reparar danos e coibir abusos.
Fonte: Infomoney