TIC Kids Online Brasil 2025: IA, apostas e os novos riscos digitais para crianças

Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital

A proteção no ambiente virtual deixou de ser um debate periférico para as famílias. Inegavelmente, os riscos digitais para crianças e adolescentes são hoje o maior desafio civilizatório e jurídico da nossa geração. A recém-lançada pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 (Cetic.br/NIC.br) trouxe dados que exigem a atenção imediata de pais, educadores e tribunais. Antigamente, a preocupação limitava-se ao tempo de ecrã e às redes sociais básicas. Contudo, o cenário atual é assustador: os jovens convivem diariamente com inteligência artificial, publicidade invisível e o assédio das plataformas de apostas.

Neste artigo técnico, vamos destrinchar os dados alarmantes desta pesquisa. Além disso, traremos a visão da perícia forense sobre as consequências jurídicas destas exposições. Por fim, explicaremos como as famílias e as escolas devem atuar para evitar tragédias digitais silenciosas. A fotografia dos dados é atual, mas o alerta é urgentíssimo.

A infância conectada e a falsa sensação de segurança

Os números da pesquisa não deixam margem para dúvidas. Em 2025, 92% dos brasileiros entre 9 e 17 anos eram utilizadores de internet (cerca de 24 milhões de jovens). O dado mais chocante, no entanto, é o acesso precoce. De facto, 28% relataram ter acedido à internet pela primeira vez antes dos 6 anos de idade. Consequentemente, a criança entra precocemente num ecossistema predatório de algoritmos de recomendação muito antes de desenvolver qualquer capacidade de discernimento.

Se a criança entra mais cedo, a exposição aos riscos digitais para crianças multiplica-se. Portanto, não estamos mais a falar apenas de orientar adolescentes sobre nudes; estamos a falar de construir escudos de proteção desde o berço.

A televisão conectada: o inimigo silencioso na sala de estar

Quando pensamos em cibercrime, o imaginário aponta quase exclusivamente para o telemóvel (smartphone). Sem dúvida, ele domina (98% entre os adolescentes). Contudo, a pesquisa revela um dado que passa despercebido a muitos pais: 60% dos utilizadores de 9 a 17 anos acedem à internet pela televisão diariamente.

A smart TV consolidou-se como um ambiente de consumo passivo e altamente guiado por algoritmos. Na prática forense, vemos que a televisão da sala é uma porta aberta para influenciadores sem filtro e publicidade agressiva, atuando num ambiente que muitas famílias julgam ser “seguro”.

Inteligência Artificial: o novo e perigoso “conselheiro”

Se havia dúvidas sobre a velocidade da IA generativa, a TIC Kids Online 2025 eliminou-as. Atualmente, 65% dos jovens utilizam IA para diversas finalidades. Ademais, o dado mais sensível e perigoso é este: 10% relataram utilizar a IA generativa para conversar sobre problemas pessoais ou emoções.

A máquina deixou de ser uma ferramenta escolar e passou a ocupar o espaço de psicólogo e conselheiro. Inegavelmente, isso abre debates jurídicos severos sobre o risco de indução, vieses e a recolha de dados hiper-sensíveis de menores. No campo do Direito Digital, esta prática viola frontalmente a proteção reforçada exigida pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

Publicidade invisível e a epidemia das apostas online (Bets)

Talvez um dos dados mais relevantes sob a ótica do Código de Defesa do Consumidor (CDC) seja o avanço da publicidade disfarçada. A pesquisa aponta que 84% dos jovens tiveram contacto com divulgação de marcas em formatos como unboxing ou tutoriais, sem qualquer sinalização de que se tratava de propaganda. O perfilamento algorítmico infantil está a ocorrer à luz do dia.

Além disso, a edição 2025 revelou um pesadelo recente: 53% dos utilizadores de 11 a 17 anos relataram exposição a vídeos que divulgam jogos de apostas (as famosas Bets). O tema é gravíssimo, pois envolve impulsividade, gamificação e a promessa ilusória de dinheiro fácil. Por conseguinte, combater estes riscos digitais para crianças tornou-se uma prioridade máxima para a perícia digital e para o Ministério Público.

A ótica jurídica: os predadores e a crise da mediação

Os riscos relacionados com a sexualização (grooming e sextortion) continuam assustadoramente altos. Cerca de 20% dos adolescentes receberam mensagens com conteúdo sexual. Em caso de extorsão, a preservação técnica das evidências eletrónicas pela perícia é a única forma de garantir a materialidade do crime e prender o agressor.

Porém, a pesquisa revela uma inversão de papéis trágica: 50% dos pais admitiram que aprendem a usar a internet com os próprios filhos. Em suma, o adulto tenta regular um ambiente que ele mesmo não compreende. Isso comprova que o simples “controlo parental” no telemóvel não funciona isoladamente. A alfabetização digital dos pais é urgente.

Conclusão: proteja o maior património da sua vida

A edição 2025 da TIC Kids Online Brasil comprova que o problema não é apenas o tempo de acesso, mas sim a arquitetura viciante e persuasiva das plataformas. A educação digital precisa deixar de ser um assunto periférico nas escolas e dentro de casa. Em tempos de IA, publicidade invisível e apostas online, proteger os jovens é uma exigência legal, social e civilizatória. A conta da negligência tecnológica chega sempre — e o preço, infelizmente, é pago pelas famílias nos tribunais e nas clínicas psicológicas.

A sua escola e a sua família estão preparadas para este cenário?

Os riscos digitais para crianças não são brincadeira e a ignorância tecnológica não serve de defesa perante um juiz ou um predador online. Diretores de escolas e pais precisam de protocolos sólidos, conhecimento forense e ações preventivas imediatas. A M A Segurança Digital é a sua maior aliada nesta guerra invisível.

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Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital

Formado em Segurança Pública, Bacharel em Direito e Especialista em Perícia Digital Forense e Direito Digital, Marco Aurélio atua como palestrante em Segurança Digital, com foco na prevenção e análise de incidentes cibernéticos, proteção de dados e compliance digital. Criador da M A Segurança Digital, dedica-se a traduzir a tecnologia em linguagem jurídica e prática para empresas e profissionais do Direito.

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