A segurança da geolocalização tornou-se um ponto crítico à medida que aplicativos passaram a utilizar a posição do celular para oferecer entregas, transporte, mapas, promoções e serviços personalizados. Embora esses recursos tragam conveniência, eles também podem registrar deslocamentos, locais frequentes e padrões de comportamento.
O problema, portanto, não está apenas em um eventual ataque hacker. Muitas vezes, o risco começa no uso cotidiano, quando o usuário concede acesso permanente sem verificar por que o aplicativo precisa daquela informação.
Uma publicação da Varejo S.A., ligada à Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, destaca justamente essa mudança. Segundo o texto, dados antes tratados como técnicos podem assumir valor estratégico quando revelam rotinas, deslocamentos e hábitos.
Por que a segurança da geolocalização virou prioridade?
A localização do celular não depende exclusivamente do GPS. Os sistemas também podem usar redes Wi-Fi, antenas de telefonia e conexões Bluetooth para estimar onde o aparelho está.
Além disso, o usuário pode conceder acesso aproximado ou preciso. Dependendo da configuração, o aplicativo também consegue consultar a posição enquanto está em segundo plano.
Uma única localização pode parecer pouco relevante. Contudo, a repetição cria um padrão.
Depois de algum tempo, o histórico pode indicar:
- onde a pessoa mora;
- onde trabalha ou estuda;
- quais trajetos realiza;
- quais estabelecimentos frequenta;
- em quais horários costuma sair;
- quando permanece longe de casa.
Em outras palavras, o dado deixa de representar apenas um ponto no mapa. Ele passa a descrever a rotina de uma pessoa.
Aplicativos precisam mesmo da localização precisa?
Alguns serviços dependem da posição do usuário. Um aplicativo de transporte, por exemplo, precisa localizar o passageiro. Da mesma forma, um serviço de entrega necessita do endereço para concluir o pedido.
Entretanto, nem toda função exige acompanhamento permanente ou precisão de poucos metros.
Uma loja pode pedir a cidade para mostrar unidades próximas. Nesse caso, a localização aproximada talvez seja suficiente. Por outro lado, um jogo, uma lanterna ou um editor de imagens dificilmente precisa conhecer os deslocamentos do usuário durante todo o dia.
Por isso, a pergunta correta não é apenas: “o aplicativo pediu permissão?”.
A análise deve considerar:
- qual é a finalidade;
- qual nível de precisão é necessário;
- por quanto tempo o acesso permanecerá ativo;
- se a informação será compartilhada;
- como o usuário poderá revogar a autorização.
A própria Varejo S.A. ressalta que a privacidade precisa superar o consentimento meramente formal. Na prática, empresas devem avaliar contexto, finalidade e impacto potencial da informação coletada.
Geolocalização é dado sensível pela LGPD?
A Lei Geral de Proteção de Dados define dado pessoal como qualquer informação relacionada a uma pessoa identificada ou identificável. Portanto, quando a localização pode ser associada a um usuário, ela entra no campo de proteção da LGPD.
Contudo, a geolocalização não aparece expressamente na lista de dados pessoais sensíveis do artigo 5º. Essa categoria inclui, por exemplo, informações sobre saúde, religião, opinião política, origem racial, genética e biometria.
Ainda assim, o contexto pode elevar o risco.
Uma sequência de localizações pode revelar visitas a hospitais, templos religiosos, sindicatos, sedes partidárias ou outros locais relacionados a aspectos sensíveis da vida. Por isso, a análise não deve considerar apenas o dado isolado, mas também aquilo que ele permite inferir.
Além disso, a LGPD exige finalidade, adequação, necessidade, transparência, segurança, prevenção e prestação de contas. Dessa forma, uma empresa não deve coletar localização apenas porque o sistema permite. Ela precisa demonstrar por que o tratamento é necessário e como reduzirá os riscos.
Quando a localização digital ameaça a segurança física?
O impacto não se limita à publicidade direcionada.
Uma pessoa mal-intencionada pode acompanhar marcações, horários e locais recorrentes para planejar stalking, assédio, furto ou engenharia social. Além disso, perfis falsos podem usar essas informações para simular encontros casuais ou criar abordagens convincentes.
Esse risco aparece no artigo Pessoas próximas no Instagram: o recurso que toda mulher precisa revisar agora. O conteúdo mostra como localização compartilhada, horários previsíveis e seguidores desconhecidos podem aproximar o risco digital da vida física.
Ao mesmo tempo, remover o GPS das fotografias já não resolve tudo.
Ferramentas de inteligência artificial podem estimar onde uma imagem foi registrada por meio de fachadas, placas, vegetação e padrões arquitetônicos. O artigo GeoSpy AI: a inteligência artificial que descobre onde a sua foto foi tirada explica como a análise visual pode revelar locais mesmo sem os metadados da câmera.
Portanto, proteger a localização também exige revisar o conteúdo visível das publicações.
Empresas precisam controlar a geolocalização corporativa
O risco alcança igualmente o ambiente empresarial.
Aplicativos instalados em celulares corporativos podem registrar deslocamentos de funcionários, visitas a clientes, rotas de transporte e locais de operação. Além disso, fotografias publicadas por equipes podem revelar depósitos, obras, equipamentos ou instalações estratégicas.
Por isso, a governança deve incluir:
- inventário dos aplicativos autorizados;
- análise das permissões solicitadas;
- proibição de acesso permanente sem justificativa;
- uso de localização aproximada quando possível;
- revisão periódica das configurações;
- política para fotografias em áreas internas;
- controle de aplicativos em aparelhos corporativos;
- orientação sobre publicações em tempo real.
A coleta também precisa respeitar os princípios da necessidade e da transparência. Afinal, monitorar um funcionário de forma contínua pode ultrapassar a finalidade legítima do serviço.
Nesse sentido, segurança da informação, proteção de dados e gestão de pessoas precisam atuar de forma coordenada.
Como revisar a localização no Android?
No Android, o usuário pode verificar quais aplicativos possuem acesso ao local do aparelho.
Em geral, o caminho é:
- abra Configurações;
- acesse Localização;
- toque em Permissões de acesso à localização;
- escolha o aplicativo;
- selecione o nível de acesso adequado.
O sistema pode oferecer opções como permitir sempre, permitir durante o uso, perguntar a cada acesso ou não permitir. Também é possível desativar a localização exata e compartilhar apenas uma posição aproximada. Os nomes dos menus podem variar conforme o fabricante e a versão do sistema.
Como regra prática, mantenha o acesso permanente somente quando a função realmente depender dele.
Como ajustar a localização no iPhone?
No iPhone, acesse:
- Ajustes;
- Privacidade e Segurança;
- Serviços de Localização;
- selecione o aplicativo;
- escolha a permissão desejada.
O iOS permite opções como nunca, perguntar novamente, durante o uso ou sempre. Além disso, o usuário pode desligar a opção Localização Precisa quando o aplicativo não precisa saber o ponto exato.
O sistema também oferece o Relatório de Privacidade dos Apps, que ajuda a revisar como os aplicativos utilizam permissões e conexões de rede.
Outros cuidados que reduzem a exposição
Revisar permissões representa o primeiro passo. Contudo, a proteção depende também dos hábitos de publicação.
Adote estas medidas:
- evite marcar locais em tempo real;
- publique fotografias depois de sair;
- não mostre fachadas, portarias ou placas;
- desative a localização precisa quando ela não for necessária;
- remova aplicativos que não utiliza;
- revise seguidores e contatos autorizados;
- verifique políticas de privacidade;
- desconfie de apps que pedem permissões excessivas;
- mantenha o sistema atualizado.
Além disso, familiares devem conversar com crianças e adolescentes sobre localização, uniforme escolar, rotinas e locais frequentados.
Uma postagem aparentemente inocente pode reunir informações suficientes para identificar onde alguém estuda, mora ou permanece sozinho.
Conclusão: conveniência não deve eliminar o controle
A segurança da geolocalização não exige abandonar mapas, entregas ou aplicativos de transporte. Esses serviços possuem utilidade real e, em muitos casos, dependem da posição do aparelho.
Entretanto, conveniência não deve significar acesso ilimitado.
Usuários precisam verificar quais aplicativos acompanham sua localização, enquanto empresas devem justificar a coleta, limitar a precisão e proteger o histórico produzido.
O ponto central é simples: localização não representa apenas onde você está agora. Quando acumulada, ela pode revelar onde você esteve, para onde costuma ir e qual será provavelmente seu próximo destino.
Por isso, controlar permissões também significa proteger rotina, patrimônio e segurança física.
Sua empresa conhece os aplicativos que coletam localização nos aparelhos corporativos? Agende uma auditoria de exposição digital ou consultoria em segurança e proteção de dados pelo WhatsApp.
Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
Formado em Segurança Pública, Bacharel em Direito e Especialista em Perícia Digital Forense e Direito Digital, Marco Aurélio atua como palestrante em Segurança Digital, com foco na prevenção e análise de incidentes cibernéticos, proteção de dados e compliance digital. Criador da M A Segurança Digital e autor do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, dedica-se a traduzir a tecnologia em linguagem jurídica e prática para empresas e profissionais do Direito.
Fontes consultadas
A Varejo S.A. analisa os riscos da geolocalização no uso cotidiano de aplicativos
O suporte do Android ensina a revisar permissões de localização
A Apple explica como controlar a localização precisa no iPhone
A legislação brasileira estabelece os princípios aplicáveis ao tratamento de dados pessoais