Na noite de 27 de agosto de 2026, participei do painel sobre violência digital contra mulheres durante o FEMPOWER VOCÊ + SEGURA 2.0, realizado no Projeto Only Way Instituto, em Mogi das Cruzes.
O encontro reuniu especialistas de diferentes áreas para discutir prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher de forma multidisciplinar. Além da violência digital, a programação abordou violência patrimonial, psicológica, moral e física, autonomia financeira, autoconfiança e parentalidade segura em ambientes digitais.
A participação no painel permitiu levar para esse debate uma questão que precisa ganhar cada vez mais espaço: a violência não deixa de ser real porque acontece através de um celular.
O que é violência digital contra mulheres?
Violência digital contra mulheres é o uso de tecnologias para controlar, ameaçar, perseguir, humilhar, expor ou causar danos à mulher.
O Decreto nº 12.976/2026 incorporou ao ordenamento brasileiro uma definição ampla da violência contra mulheres em ambiente digital. A norma inclui situações como perseguição on-line, vigilância, controle tecnológico, ameaças, violência psicológica, exposição íntima sem consentimento e manipulação de imagem ou som por inteligência artificial.
Portanto, o problema vai muito além de uma mensagem ofensiva.
Um agressor pode descobrir credenciais, controlar contas, monitorar localização, instalar spyware ou stalkerware, criar perfis falsos, acompanhar redes sociais ou utilizar informações pessoais para intimidar a vítima.
Em muitos casos, aliás, o celular se transforma em instrumento permanente de controle.
FEMPOWER 2.0 ampliou o conceito de prevenção
O FEMPOWER VOCÊ + SEGURA 2.0 aconteceu das 18h às 22h e teve como objetivo promover conscientização, prevenção e fortalecimento da sociedade no enfrentamento à violência contra a mulher.
A proposta adotou uma visão multidisciplinar. Isso é importante porque dificilmente a violência ocorre de forma completamente isolada.
A violência psicológica pode aparecer junto da violência patrimonial. Da mesma maneira, o controle do relacionamento pode migrar para senhas, contas, aplicativos e localização do celular.
O próprio evento também abordou parentalidade e segurança em ambientes de jogos digitais, reforçando que a prevenção precisa chegar às famílias. Essa discussão se relaciona diretamente ao propósito do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, no qual abordo segurança digital, exposição on-line, cyberbullying, golpes e os desafios de pais e responsáveis diante da vida conectada.
Violência digital contra mulheres cresceu 188,6% nos registros do Ligue 180
Os números ajudam a compreender por que esse debate se tornou urgente.
Nos primeiros cinco meses de 2026, o Ligue 180 registrou 16.725 ocorrências relacionadas a violências digitais contra mulheres. No mesmo período de 2025, foram 5.795. Portanto, houve crescimento de 188,6%.
Além disso, até maio deste ano, o ambiente virtual apareceu como cenário da violência em 2.250 denúncias.
Esses registros incluem situações como ameaças, perseguição on-line, invasão de contas, divulgação não consentida de imagens íntimas, chantagem, ataques coordenados e manipulações produzidas com inteligência artificial.
Consequentemente, segurança digital também passou a fazer parte da proteção da mulher.
Controle de senha também pode ser um sinal de violência?
Pode.
Existe uma diferença entre compartilhar voluntariamente uma informação e viver sob exigência permanente de fiscalização.
Quando um parceiro exige senhas, controla conversas, acompanha a localização ou acessa contas contra a vontade da mulher, a tecnologia pode integrar uma dinâmica de vigilância e violência psicológica.
Por isso, frases aparentemente simples como “se não tem nada para esconder, me passa sua senha” merecem atenção quando fazem parte de um relacionamento marcado por controle.
A M A Segurança Digital já analisou esse problema no conteúdo sobre monitoramento do parceiro sem consentimento, incluindo o uso de aplicativos espiões e stalkerwares. Monitorar o parceiro sem consentimento é crime?
Inteligência artificial também ampliou os riscos
A evolução da inteligência artificial criou uma nova dimensão para a violência digital.
Hoje, alguém pode produzir uma imagem sexual falsa utilizando apenas fotografias comuns disponíveis nas redes sociais.
É o problema dos deepfakes.
O Decreto nº 12.976/2026 reconhece como conteúdo íntimo também aquele produzido ou manipulado, total ou parcialmente, por inteligência artificial. Além disso, a norma inclui expressamente formas de violência psicológica praticadas com tecnologias que alterem imagem ou som da vítima.
Portanto, a vítima não precisa ter produzido uma imagem íntima verdadeira para sofrer violência sexual digital.
A tecnologia pode fabricar a exposição.
Conteúdo íntimo deve ser retirado em até duas horas
Outro avanço importante entrou em vigor em julho deste ano.
O Decreto nº 12.976/2026 determina que provedores indisponibilizem a exibição não autorizada de conteúdo íntimo após notificação da vítima ou de representante legitimado.
Nesse caso específico, o prazo máximo previsto é de duas horas a partir da notificação. Além disso, a norma determina mecanismos para impedir o reenvio automático daquele conteúdo dentro da aplicação.
Essa regra possui enorme relevância porque, na internet, algumas horas podem significar milhares de novos compartilhamentos.
O que fazer diante de violência digital?
A orientação técnica precisa equilibrar duas necessidades: interromper o dano e preservar a prova.
Por isso, diante de uma situação de violência digital, alguns cuidados são fundamentais:
- não apague imediatamente mensagens, perfis ou arquivos;
- preserve prints com data, horário e identificação do perfil;
- copie os links das publicações e contas envolvidas;
- guarde e-mails e mensagens originais;
- troque senhas quando houver suspeita de comprometimento;
- ative autenticação de dois fatores;
- encerre sessões desconhecidas nas contas;
- revise compartilhamentos de localização;
- comunique a plataforma quando houver conteúdo ilícito;
- procure os canais oficiais de atendimento e autoridades competentes.
O Ministério das Mulheres também orienta vítimas a preservar prints, links, mensagens e outras provas digitais.
Já publiquei no blog uma orientação específica sobre como o Ligue 180 pode auxiliar mulheres vítimas de violência digital, inclusive quanto à preservação inicial dos vestígios. Violência digital contra as mulheres: como o Ligue 180 pode ajudar
Por que um print pode não ser suficiente?
O print é importante, mas representa apenas uma parte da evidência.
Em determinadas situações, será necessário preservar URLs, arquivos originais, metadados, registros de acesso, cabeçalhos de e-mail e outras informações técnicas.
Além disso, com a popularização da inteligência artificial, tornou-se cada vez mais fácil questionar a autenticidade de uma imagem isolada.
Por isso, a perícia digital pode cumprir papel decisivo ao analisar a origem, integridade e contexto de determinada prova.
A preservação adequada também reduz o risco de o agressor apagar o perfil ou alterar informações antes que as autoridades consigam analisá-las.
Segurança digital também é autonomia
Um ponto central do painel é compreender que proteção digital não significa simplesmente mandar uma mulher abandonar redes sociais.
Essa resposta seria contraditória.
A vítima não deve perder sua presença digital porque outra pessoa decidiu persegui-la.
Segurança significa proporcionar instrumentos para que ela continue utilizando tecnologia com autonomia.
Isso envolve privacidade, segurança da informação, senhas fortes, autenticação de dois fatores, proteção de contas, controle de localização e conhecimento sobre engenharia social, phishing e outras formas de manipulação digital.
Em outras palavras, ensinar proteção não significa ensinar medo.
Significa ampliar capacidade de decisão.
Informação transforma prevenção em cultura
O Notícias de Mogi destacou antes do evento que o FEMPOWER 2.0 pretendia discutir formas de violência que ultrapassam a agressão física e oferecer ferramentas relacionadas à autonomia financeira, psicológica, jurídica e digital.
Essa abordagem representa exatamente o tipo de discussão que precisamos ampliar.
A prevenção funciona melhor quando começa antes da ocorrência.
Uma mulher que reconhece sinais de vigilância digital, sabe revisar suas contas e entende que perseguição on-line não é comportamento normal possui mais ferramentas para buscar ajuda.
Da mesma forma, profissionais da rede de proteção precisam compreender como preservar provas digitais e orientar corretamente uma vítima.
Conclusão: violência digital também precisa ser reconhecida
Participar do painel sobre violência digital contra mulheres no FEMPOWER 2.0, em Mogi das Cruzes, reforçou uma convicção que acompanha meu trabalho em segurança digital: tecnologia pode proteger, mas também pode ampliar formas antigas de violência.
A ameaça pode chegar pelo WhatsApp.
A perseguição pode acontecer pelo Instagram.
O controle pode utilizar localização em tempo real.
A exposição pode surgir por meio de um deepfake.
Portanto, enfrentar a violência contra a mulher também exige compreender aquilo que acontece nas telas.
A proteção da mulher no ambiente digital passa pela informação, pela prevenção, pela preservação das provas e pela capacidade de reconhecer quando a tecnologia deixou de ser ferramenta de comunicação e passou a ser instrumento de controle.
A Central de Atendimento à Mulher, Ligue 180, funciona gratuitamente 24 horas por dia. O atendimento também ocorre pelo WhatsApp. Em situações de emergência, a orientação oficial é acionar a Polícia Militar pelo 190.
A M A Segurança Digital atua com palestras, capacitações, perícia digital e orientação sobre violência digital, segurança da informação, proteção de dados e prevenção de crimes no ambiente on-line.
Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
Advogado e Especialista em Perícia Digital Forense e Direito Digital, Marco Aurélio atua como palestrante em Segurança Digital, com foco na prevenção e análise de incidentes cibernéticos, proteção de dados e compliance digital. Criador da M A Segurança Digital e autor do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, dedica-se a traduzir a tecnologia em linguagem jurídica e prática para empresas e profissionais do Direito.