Mulheres ainda enfrentam misoginia no metaverso: um alerta para segurança digital

Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
Publicado em 08 de agosto de 2025

Mesmo com os avanços tecnológicos dos mundos virtuais, o metaverso ainda se mostra um ambiente hostil para mulheres e meninas. Um relatório recente publicado pelo The Guardian denuncia casos crescentes de assédio sexual, linguagem misógina e tentativas de grooming (aliciamento de menores) em plataformas como o Horizon Worlds, da Meta, que ainda falham em oferecer proteção efetiva para o público feminino.

O caso levanta sérias preocupações sobre a governança das plataformas digitais e mostra que, por trás das promessas de inovação e liberdade no metaverso, persistem velhos problemas estruturais de desigualdade e violência de gênero.

O que está acontecendo dentro do metaverso?

O Horizon Worlds, ambiente virtual imersivo da Meta (ex-Facebook), permite que usuários criem avatares e interajam em tempo real. Porém, relatos anônimos e investigações jornalísticas apontam que mulheres têm sido alvo frequente de comportamentos abusivos, como:

  • Comentários de cunho sexual ou degradante;
  • Abordagens invasivas com toques ou gestos simulados;
  • Situações de stalking ou perseguição virtual;
  • Tentativas de aliciamento de menores com perfis femininos.

Essas interações, mesmo ocorrendo em um “mundo digital”, têm impactos psicológicos reais, incluindo ansiedade, medo e exclusão de mulheres dessas plataformas.

A falha das plataformas e o perigo da impunidade

Apesar das ferramentas de denúncia e do “personal bubble” (espaço de segurança ao redor do avatar), muitas vítimas relatam que:

  • As medidas de moderação são lentas ou ineficazes;
  • Os agressores raramente são punidos;
  • As diretrizes de uso são ambíguas quanto ao comportamento abusivo;
  • Há dificuldade em obter suporte humano em tempo real.

Na prática, isso gera um ambiente permissivo à violência virtual, onde o anonimato e a descentralização dificultam a responsabilização dos infratores.

O que diz a legislação?

Ainda que o metaverso não tenha regulação específica no Brasil, comportamentos ocorridos nesses ambientes podem ser enquadrados em legislações já existentes, como:

  • Lei 11.340/2006 – Lei Maria da Penha, aplicável quando há violência psicológica e moral contra a mulher, mesmo em ambientes digitais;
  • Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), que garante a inviolabilidade da intimidade e dos dados pessoais;
  • Lei 14.132/2021, que criminaliza o stalking (perseguição reiterada);
  • Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD – Lei 13.709/2018), em casos de exposição indevida ou coleta ilegal de dados sensíveis.

Portanto, a violência no metaverso pode e deve ser levada ao judiciário, especialmente se houver provas como vídeos, prints, ou testemunhos em plataformas com registro de logs.

Como podemos proteger mulheres e meninas no ambiente digital?

Para reduzir esses riscos e fortalecer a segurança digital feminina, são recomendadas ações em três frentes:

1. Para plataformas e desenvolvedores:

  • Criar políticas de tolerância zero à violência virtual;
  • Ampliar os recursos de denúncia e resposta rápida;
  • Desenvolver sistemas de moderação por IA com viés de proteção humanizada;
  • Oferecer suporte psicológico e jurídico para vítimas de violência virtual.

2. Para as usuárias:

  • Ativar sempre as configurações de segurança disponíveis (como bolhas virtuais ou anonimato);
  • Evitar interações em espaços não moderados ou com usuários desconhecidos;
  • Registrar provas em caso de abuso (prints, gravações, etc.);
  • Denunciar internamente na plataforma e, se necessário, às autoridades.

3. Para o Estado:

  • Atualizar o arcabouço jurídico digital;
  • Fomentar parcerias entre o Ministério da Justiça, empresas de tecnologia e defensorias públicas;
  • Criar políticas públicas de educação digital com foco em gênero.

Conclusão

O metaverso pode ser uma ferramenta poderosa para inclusão, inovação e experiências sociais. Mas sem segurança, ele se torna um reflexo ampliado das desigualdades do mundo real. É urgente discutir a ética, a regulação e o respeito aos direitos humanos dentro dos ambientes virtuais, especialmente para proteger mulheres e meninas.

Como defensores da segurança digital, é nosso papel denunciar essas falhas, apoiar as vítimas e promover ambientes virtuais justos, inclusivos e seguros.

Fonte:
🔗 The Guardian – Misogyny in the metaverse

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