Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
A proteção infantil online continua apresentando falhas graves nas maiores plataformas digitais do mundo. Embora empresas como Apple, Google, Meta, Microsoft, Discord e Snapchat invistam bilhões em inteligência artificial e infraestrutura, elas ainda não conseguem prevenir de forma consistente o grooming, a sextorsão e a circulação de material de abuso sexual infantil.
Um relatório da eSafety Commissioner, autoridade australiana de segurança digital, revelou lacunas nos sistemas de detecção, nos canais de denúncia e na resposta das empresas diante de crimes que atingem crianças, adolescentes e jovens. (eSafety Commissioner)
O problema, portanto, não parece ser falta de tecnologia.
Em muitos casos, as ferramentas existem. No entanto, as plataformas ainda não as utilizam de maneira ampla, preventiva e proporcional ao risco.
Relatório revela falhas na proteção infantil online
A eSafety analisou informações fornecidas por Apple, Discord, Google, Meta, Microsoft, Snap e WhatsApp sobre o período de julho a dezembro de 2025.
O relatório examinou como essas empresas enfrentam a exploração sexual infantil, o grooming e a extorsão sexual. Além disso, avaliou recursos de detecção, mecanismos de denúncia e medidas adotadas para interromper os crimes. (eSafety Commissioner)
Na sextorsão, o criminoso manipula a vítima para obter uma fotografia ou vídeo íntimo. Em seguida, ameaça divulgar o conteúdo caso a pessoa não pague, envie novas imagens ou cumpra outras exigências.
Por isso, o dano não se limita à perda financeira. A vítima pode enfrentar medo, vergonha, isolamento e intenso sofrimento psicológico.
Quando o alvo é uma criança ou adolescente, a conduta também representa uma forma de exploração e abuso sexual infantil.
As plataformas conhecem os riscos, mas ainda fazem pouco
A autoridade australiana já apresentou às empresas evidências sobre os métodos utilizados pelos criminosos. Mesmo assim, diversas plataformas continuam oferecendo respostas insuficientes.
Muitas conseguem identificar imagens que já aparecem em bancos de dados de material abusivo. Porém, o desafio aumenta quando o arquivo é novo, surge durante uma chamada de vídeo ou utiliza inteligência artificial para produzir conteúdo sintético.
Em outras palavras, os sistemas detectam com mais facilidade aquilo que já conhecem.
O verdadeiro teste consiste em reconhecer o abuso enquanto ele acontece ou antes que gere consequências irreversíveis.
O relatório oficial mostrou que algumas empresas ampliaram o uso de ferramentas de análise. Ainda assim, persistem falhas na detecção de grooming, extorsão sexual e novos materiais de exploração. (eSafety Commissioner)
Apple, Google, WhatsApp, Snapchat e Discord receberam críticas
A eSafety apontou limitações concretas nos serviços avaliados.
No ecossistema da Apple, por exemplo, a autoridade identificou restrições na análise de linguagem para detectar mensagens coercitivas.
O Snapchat utiliza mecanismos desse tipo. No entanto, em determinados cenários, a plataforma ativa os controles somente depois que alguém denuncia o usuário.
Já o Discord interrompeu alguns testes relacionados à análise de linguagem, apesar dos riscos associados à plataforma.
O WhatsApp também recebeu críticas pela ausência de categorias específicas para denunciar sextorsão ou material de abuso sexual infantil.
Além disso, o relatório destacou a complexidade de alguns formulários oferecidos por serviços do Google.
Por outro lado, a Microsoft recebeu reconhecimento por adotar ferramentas capazes de detectar e interromper determinados abusos durante chamadas de vídeo. (eSafety Commissioner)
Um canal de denúncia ruim também representa falha de segurança
Imagine uma criança recebendo ameaças de divulgação de uma imagem íntima.
Ela sente medo.
Também pode sentir vergonha e acreditar que os adultos irão culpá-la.
Agora coloque essa vítima diante de um formulário longo, burocrático e sem uma opção clara para denunciar o crime.
Isso não é apenas um problema de experiência do usuário. É uma falha de proteção infantil online.
Por isso, as plataformas precisam oferecer canais simples, rápidos e acessíveis. Além disso, devem informar claramente quais medidas tomar e preservar os dados necessários para investigação.
Segurança por design não significa apenas criptografia, autenticação e código seguro.
Também significa pensar antecipadamente em como proteger pessoas vulneráveis quando o sistema falhar.
O artigo sobre a responsabilidade das plataformas na segurança digital da infância aprofunda esse debate sob a perspectiva jurídica brasileira.
Inteligência artificial amplia a exploração sexual infantil
A inteligência artificial generativa adicionou uma nova camada ao problema.
Criminosos podem usar fotografias comuns para criar imagens íntimas falsas de crianças e adolescentes. Além disso, conseguem alterar rostos, corpos e cenários com alto grau de realismo.
Consequentemente, a ausência de uma fotografia íntima verdadeira já não impede a chantagem.
A vítima pode sofrer humilhação, ameaças e danos psicológicos mesmo quando o conteúdo foi totalmente fabricado.
Por isso, comparar somente o hash de arquivos conhecidos já não basta. As empresas precisam identificar linguagem de aliciamento, padrões de coerção e tentativas de produzir material abusivo por meio de IA.
O artigo IA, apostas e os novos riscos digitais para crianças apresenta outros perigos tecnológicos que atingem o público infantil. (MA)
Criptografia não pode virar desculpa para omissão
Esse debate exige equilíbrio.
A criptografia de ponta a ponta protege usuários, empresas, advogados, jornalistas e cidadãos contra espionagem e acesso indevido.
Portanto, a solução não consiste em destruir a privacidade das comunicações.
No entanto, as empresas também não podem usar a criptografia como argumento para abandonar vítimas ou oferecer canais de denúncia ineficientes.
As plataformas podem fortalecer a proteção infantil online por meio de:
- análise de comportamento e linguagem;
- bloqueio de contas reincidentes;
- limites de contato entre adultos e menores;
- denúncias simplificadas;
- avisos preventivos;
- preservação de evidências;
- suporte especializado às vítimas.
Assim, privacidade e segurança não precisam funcionar como valores inimigos. O verdadeiro desafio está em criar medidas proporcionais, transparentes e auditáveis.
Como famílias podem fortalecer a proteção infantil online?
As plataformas possuem responsabilidade sobre o design e a segurança dos serviços. Porém, famílias e escolas também precisam construir uma rede de prevenção.
Pais e responsáveis devem conversar sobre:
- pedidos de fotografias íntimas;
- perfis falsos;
- chantagens;
- grooming;
- sextorsão;
- deepfakes;
- contatos com desconhecidos;
- preservação de mensagens e provas.
A reação do adulto faz diferença.
Quando os pais gritam, punem ou culpam a vítima, o criminoso ganha sua principal arma: o silêncio.
Por outro lado, uma resposta acolhedora aumenta a chance de a criança relatar o problema rapidamente.
Esse é um dos pilares do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, criado para ajudar famílias e educadores a reconhecer riscos, configurar proteções e construir diálogo sobre segurança digital. (MA)
A proposta não consiste em transformar a tecnologia em inimiga. Ao contrário, busca preparar os adultos para orientar crianças e adolescentes com informação, presença e confiança.
O que fazer diante de uma ameaça de sextorsão?
A vítima não deve pagar nem enviar novos conteúdos.
Também não deve apagar imediatamente as conversas, pois mensagens, perfis, números, links e arquivos podem servir como provas.
O caminho recomendado inclui:
- interromper o contato com o agressor;
- preservar mensagens e dados do perfil;
- denunciar a conta na plataforma;
- buscar ajuda de um adulto de confiança;
- registrar a ocorrência;
- procurar orientação técnica e jurídica.
Quando necessário, a perícia digital pode preservar evidências, identificar perfis, analisar arquivos e organizar o material para apresentação às autoridades.
Agir rápido importa.
Agir com método importa ainda mais.
Conclusão: inovação exige responsabilidade
O relatório australiano demonstra que a proteção infantil online não pode depender apenas da atenção das vítimas ou da vigilância dos pais.
As big techs controlam algoritmos, sistemas de recomendação, mecanismos de denúncia e ferramentas de detecção. Portanto, devem assumir responsabilidade proporcional ao poder que exercem.
As empresas possuem tecnologia, profissionais e recursos financeiros para avançar.
Agora, precisam transformar capacidade técnica em prevenção concreta.
Quando a inovação evolui sem responsabilidade, o risco também cresce.
Precisa de orientação sobre segurança digital, proteção de crianças e adolescentes ou preservação de provas? Fale pelo WhatsApp e agende uma avaliação especializada.
Fontes:
MediaTalks/UOL: relatório aponta omissão das big techs contra abusos
eSafety Commissioner: relatório sobre exploração sexual, grooming e sextorsão
Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
Formado em Segurança Pública, Bacharel em Direito e Especialista em Perícia Digital Forense e Direito Digital, Marco Aurélio atua como palestrante em Segurança Digital, com foco na prevenção e análise de incidentes cibernéticos, proteção de dados e compliance digital. Criador da M A Segurança Digital e autor do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, dedica-se a traduzir a tecnologia em linguagem jurídica e prática para empresas e profissionais do Direito.