Saber o que não digitar no ChatGPT tornou-se essencial à medida que a inteligência artificial passou a fazer parte dos estudos, do trabalho e das tarefas pessoais. A ferramenta pode organizar ideias, revisar textos e explicar assuntos complexos. Contudo, ela não deve funcionar como um cofre para senhas, documentos sigilosos ou dados pessoais completos.
Isso não significa que toda conversa será publicada ou que o ChatGPT representa, por si só, um vazamento de dados. Na verdade, o risco aumenta quando o usuário envia informações desnecessárias para um serviço online.
A exposição também pode acontecer fora da própria plataforma. Uma conta invadida, um dispositivo compartilhado ou um link enviado por engano conseguem revelar conversas.
Portanto, adote uma regra simples: não envie para uma inteligência artificial algo que você não aceitaria ver fora do contexto original.
1. Senhas, códigos de acesso e autenticação
Em primeiro lugar, senhas nunca devem aparecer em uma conversa com inteligência artificial.
Esse cuidado vale para credenciais de e-mail, redes sociais, bancos, sistemas empresariais, roteadores e plataformas em nuvem.
Da mesma forma, códigos temporários recebidos por SMS, tokens de autenticação e chaves de recuperação devem permanecer fora do chat.
Quando o objetivo for pedir ajuda para configurar uma conta, explique o problema sem revelar a credencial verdadeira. Por exemplo, substitua a senha real por “SENHA_REMOVIDA”.
Desse modo, a IA recebe o contexto técnico necessário sem acessar uma informação capaz de comprometer sua conta.
2. Dados completos de cartão e conta bancária
Da mesma maneira, número completo do cartão, código de segurança, senha bancária, agência, conta e chaves privadas não devem ser inseridos no ChatGPT.
Comprovantes, extratos e faturas também exigem cautela. Afinal, esses documentos podem revelar endereço, renda, hábitos de consumo e identificadores de transações.
Ainda assim, é possível pedir ajuda para entender uma cobrança. Antes de enviar o arquivo, remova:
- nome completo;
- CPF;
- número da conta;
- número do cartão;
- endereço;
- código de barras;
- QR Code;
- identificadores da operação.
Em outras palavras, a inteligência artificial precisa conhecer o problema financeiro, não a identidade completa do titular.
3. CPF, RG, passaporte e documentos pessoais
Documentos oficiais concentram informações que podem facilitar fraudes, falsificação cadastral e engenharia social.
Por isso, evite enviar fotografias integrais de RG, CNH, passaporte, título eleitoral, certidões ou comprovantes de residência.
Cobrir apenas o número do documento pode não resolver. A imagem ainda pode mostrar fotografia, filiação, assinatura, data de nascimento, endereço ou códigos verificáveis.
Caso precise revisar um formulário, substitua os campos reais por expressões como “NOME”, “CPF”, “ENDEREÇO” e “NÚMERO DO DOCUMENTO”.
Dessa forma, o modelo consegue analisar a estrutura sem receber os dados verdadeiros.
4. Informações médicas identificáveis
Por outro lado, o ChatGPT pode ajudar a explicar termos de um exame ou organizar perguntas para uma consulta. Entretanto, não há necessidade de informar nome completo, endereço, telefone ou número do prontuário.
Também é importante evitar o envio de laudos de terceiros sem autorização.
Dados de saúde recebem proteção especial porque podem gerar discriminação, constrangimento e outros danos. Consequentemente, clínicas, profissionais e empresas precisam adotar critérios ainda mais rigorosos antes de utilizar ferramentas externas.
Além disso, uma resposta de inteligência artificial não substitui avaliação médica. O conteúdo pode auxiliar na compreensão inicial, mas decisões sobre diagnóstico e tratamento dependem de profissionais habilitados.
5. Dados de clientes, funcionários e terceiros
Na prática, um erro recorrente ocorre quando profissionais colam planilhas, contratos, mensagens ou listas para solicitar um resumo.
Durante esse processo, podem aparecer nomes, telefones, salários, avaliações de desempenho, informações de saúde e registros disciplinares.
Embora o colaborador possua acesso ao documento, isso não significa que ele pode transferi-lo para qualquer plataforma.
Por essa razão, a empresa precisa definir quais ferramentas estão autorizadas, quais informações podem ser processadas e quais técnicas de anonimização devem ser utilizadas.
Esse problema integra o chamado Shadow AI, situação em que funcionários utilizam sistemas de inteligência artificial fora das políticas institucionais.
O artigo Governança de IA: o que a disputa entre ChatGPT e Google significa para as empresas aprofunda os riscos do uso de plataformas não homologadas em ambientes corporativos.
6. Segredos comerciais e documentos confidenciais
Estratégias, contratos ainda não assinados, códigos proprietários e relatórios internos não devem ser inseridos em contas pessoais sem autorização.
Antes de enviar qualquer documento, o profissional precisa considerar deveres de sigilo, políticas internas e limitações contratuais.
Entre os conteúdos de maior risco estão planos de negócios, listas de clientes, investigações internas, pareceres jurídicos, projetos técnicos e vulnerabilidades ainda não corrigidas.
Mesmo quando a finalidade parece legítima, a transferência pode contrariar regras da organização. Portanto, o uso profissional da IA precisa ocorrer dentro de uma política formal e por meio de ferramentas aprovadas.
7. Chaves de API, tokens e códigos com credenciais
Programadores utilizam inteligência artificial para revisar códigos, localizar erros e produzir documentação. Contudo, arquivos reais podem conter segredos incorporados.
Chaves de API, tokens, senhas de banco de dados e strings de conexão nunca devem permanecer no trecho enviado.
Antes de compartilhar o código, substitua os valores verdadeiros:
API_KEY="CHAVE_REMOVIDA"
Em seguida, revise comentários, arquivos de configuração e logs. Muitas vezes, a credencial aparece em uma parte secundária do material.
Caso uma chave verdadeira já tenha sido enviada, apagar a conversa não basta. Nesse cenário, revogue imediatamente o segredo comprometido e gere uma nova credencial.
8. Processos judiciais sigilosos
No ambiente jurídico, advogados e equipes precisam redobrar a atenção ao utilizar sistemas de inteligência artificial.
Petições, laudos, documentos de clientes e processos em segredo de justiça podem conter informações pessoais, estratégias processuais e materiais protegidos pelo sigilo profissional.
Por esse motivo, o uso de IA deve respeitar regras institucionais, deveres éticos e procedimentos de anonimização.
Ao mesmo tempo, toda resposta gerada exige revisão humana. Sistemas automatizados podem criar referências inexistentes, interpretar decisões de forma incorreta ou omitir informações relevantes.
O artigo Manipulação da IA Galileu: o prompt injection chega aos processos judiciais apresenta outro risco: documentos podem conter instruções ocultas destinadas a influenciar ferramentas automatizadas.
Logo, a proteção envolve tanto os dados enviados quanto o conteúdo recebido.
9. Informações íntimas de outras pessoas
Conversas privadas, fotografias, conflitos familiares e detalhes íntimos não devem ser compartilhados sem necessidade ou consentimento.
Mesmo quando o usuário busca orientação, é possível descrever a situação sem identificar os envolvidos.
Para isso, substitua nomes, cidades, empresas e datas específicas por referências genéricas. Entretanto, retirar apenas o nome pode ser insuficiente.
A combinação entre profissão, idade, local e circunstâncias pode permitir a identificação indireta da pessoa. Portanto, a anonimização precisa remover todos os elementos que tornem alguém reconhecível.
10. Pedidos de fraude, invasão ou perseguição
Por fim, o ChatGPT não deve ser utilizado para tentar invadir contas, falsificar documentos, aplicar golpes ou perseguir pessoas.
Esse cuidado inclui pedidos para descobrir senhas, criar páginas de phishing, contornar controles de segurança ou obter acesso indevido a sistemas.
Além do risco jurídico, esse comportamento produz vestígios digitais e pode comprometer a própria conta.
Em contrapartida, a inteligência artificial pode apoiar estudos defensivos de cibersegurança. Nesse caso, o ambiente precisa ser autorizado, controlado e compatível com a finalidade educacional ou profissional.
Desativar o treinamento elimina todos os riscos?
Não.
Nos Controles de Dados, o usuário pode desativar a opção “Melhorar o modelo para todos”. Com isso, novas conversas deixam de ser utilizadas para aprimorar os modelos, embora continuem aparecendo no histórico.
Essa configuração oferece mais controle. Contudo, ela não transforma o chat em um local adequado para armazenar senhas, documentos confidenciais ou dados de terceiros.
A exposição ainda pode ocorrer por acesso indevido à conta, aparelhos compartilhados, extensões maliciosas, capturas de tela, conectores externos ou erro humano.
Portanto, a privacidade depende de várias camadas de proteção, e não apenas de uma configuração.
Chat temporário é totalmente privado?
O Chat temporário não aparece no histórico, não cria memórias e não é utilizado para treinamento. A plataforma, porém, pode manter uma cópia durante determinado período para finalidades de segurança.
Esse recurso pode ser útil quando o usuário não deseja conservar a conversa no histórico. Ainda assim, ele não autoriza o envio de informações desnecessárias.
Quando um GPT utiliza ações, conectores ou serviços externos, parte do conteúdo também pode seguir para terceiros.
Em resumo, temporário não significa invisível, anônimo ou livre de riscos.
Como usar o ChatGPT com mais segurança?
Antes de enviar qualquer informação, faça três perguntas:
- A inteligência artificial realmente precisa desse dado?
- Posso substituí-lo por um exemplo fictício?
- Tenho autorização para compartilhar esse conteúdo?
Depois disso, aplique medidas práticas:
- remova identificadores pessoais;
- utilize dados fictícios;
- recorte documentos e imagens;
- esconda credenciais;
- revise anexos antes do envio;
- ative autenticação multifator;
- verifique as configurações da conta;
- respeite a política da empresa;
- confira respostas importantes;
- revogue imediatamente segredos expostos.
Dessa maneira, o usuário aproveita os benefícios da ferramenta sem entregar informações que não contribuem para a resposta.
Conclusão: envie o problema, não os seus segredos
Saber o que não digitar no ChatGPT não significa abandonar a inteligência artificial.
Ao contrário, significa usar a tecnologia com finalidade, necessidade e controle.
Senhas, documentos pessoais, dados bancários, informações médicas identificáveis, segredos empresariais e dados de terceiros devem permanecer fora das conversas sempre que não forem indispensáveis.
Na maioria das situações, exemplos fictícios, descrições genéricas e textos anonimizados oferecem contexto suficiente.
Portanto, a melhor proteção começa antes do envio.
A inteligência artificial precisa receber o problema. Ela não precisa receber toda a identidade, o patrimônio e os segredos de quem faz a pergunta.
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Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
Formado em Segurança Pública, Bacharel em Direito e Especialista em Perícia Digital Forense e Direito Digital, Marco Aurélio atua como palestrante em Segurança Digital, com foco na prevenção e análise de incidentes cibernéticos, proteção de dados e compliance digital. Criador da M A Segurança Digital e autor do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, dedica-se a traduzir a tecnologia em linguagem jurídica e prática para empresas e profissionais do Direito.
Fontes consultadas
TechTudo explica quais informações nunca devem ser inseridas no ChatGPT
Entenda os Controles de Dados e o uso das conversas no treinamento
Veja como funciona o Chat temporário e quais são suas limitações
Consulte as orientações oficiais para uso responsável e seguro da inteligência artificial
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