Os golpes no Brasil em 2026 alcançaram uma dimensão que ajuda a entender por que mensagens falsas, ligações suspeitas e tentativas de fraude se tornaram parte da rotina digital. Segundo o relatório O Estado dos Golpes 2026 – Brasil, da Global Anti-Scam Alliance (GASA), 81% dos adultos brasileiros tiveram contato com algum tipo de golpe nos últimos 12 meses.
Além disso, a pesquisa estima uma média de 201,6 tentativas por pessoa ao ano. Quando esse número é aplicado à população adulta brasileira considerada pelo estudo, o resultado chega a aproximadamente 34,45 bilhões de tentativas de golpe por ano.
Entretanto, esse dado não significa que ocorreram 34,5 bilhões de crimes consumados. Trata-se de uma estimativa de exposição baseada em pesquisa amostral. Ainda assim, a dimensão revela um problema estrutural: o contato com fraudes deixou de ser ocasional.
Como foi realizada a pesquisa sobre golpes no Brasil em 2026?
No Brasil, o levantamento ouviu 1.170 adultos com 18 anos ou mais, entre 16 de março e 13 de abril de 2026. A amostra recebeu ponderação para representar a população adulta por idade, gênero e região.
A pesquisa ocorreu online e durou aproximadamente 15 minutos. Globalmente, o estudo da GASA ouviu 58.900 participantes em 42 países.
Portanto, os números representam estimativas populacionais obtidas a partir das respostas dos entrevistados. Essa informação é importante, principalmente ao interpretar valores bilionários e comparações anuais.
81% tiveram contato com golpes, mas apenas 42% confiam na própria capacidade de reconhecê-los
Um dos contrastes mais relevantes aparece entre exposição e confiança.
Enquanto 81% tiveram contato com algum golpe, somente 42% afirmaram sentir confiança em sua capacidade de identificar uma fraude. Ao mesmo tempo, 41% disseram não se sentir confiantes.
Outro dado chama atenção. O nível geral de preocupação permaneceu em 67% tanto em 2025 quanto em 2026.
Isso pode indicar uma normalização do risco. Em outras palavras, as pessoas continuam expostas, porém começam a tratar mensagens fraudulentas como parte habitual da vida digital.
Mais da metade interage com o golpista
O chamado funil dos golpes revela onde a situação se torna mais perigosa.
Entre aqueles que tiveram contato com uma fraude, 56% chegaram a interagir com ela. Essa interação pode envolver abrir uma mensagem, atender uma ligação, responder, clicar em um link ou continuar uma conversa.
Depois disso, uma em cada quatro pessoas que interagiram sofreu perda financeira. No conjunto total da amostra, 10% relataram perda de dinheiro ou de informações pessoais que resultaram em prejuízo.
Portanto, evitar o primeiro engajamento continua sendo uma das barreiras mais importantes.
Esse cenário também reforça por que engenharia social precisa integrar qualquer política de segurança. O artigo Segurança Digital: mais do que tecnologia, uma questão de cultura analisa justamente a importância do comportamento humano na prevenção de incidentes.
Quais são os golpes mais comuns no Brasil?
O relatório mostra que os criminosos exploram situações absolutamente comuns.
Os três tipos mais frequentes foram:
- golpes em compras: 22%;
- golpes envolvendo dinheiro inesperado: 17%;
- golpes de falsas oportunidades de emprego: 17%.
Depois aparecem outras modalidades, como personificação, investimento, boleto falso, caridade, relacionamento, extorsão, roubo de identidade e falsas ofertas de recuperação de dinheiro.
Esse resultado ajuda a desconstruir a ideia de que o golpe precisa parecer tecnologicamente sofisticado.
Na maioria das vezes, o criminoso oferece algo que a vítima reconhece: uma compra, uma vaga de emprego, um pagamento, uma dívida ou um contato de uma pessoa conhecida.
Telefone e WhatsApp continuam no centro das fraudes
Os meios tradicionais continuam extremamente relevantes.
Em 2026, 53% dos respondentes que se depararam com golpes relataram contatos por ligação telefônica. Aplicativos de mensagens instantâneas apareceram com 49%, seguidos por e-mail, com 39%, e SMS, com 38%.
Quando o levantamento analisa plataformas específicas, o WhatsApp aparece em primeiro lugar, com 64%. Depois surgem Gmail, com 32%, Instagram, com 22%, Facebook, com 17%, Google, com 13%, e Telegram, com 12%.
Isso demonstra que o criminoso não precisa criar um ambiente desconhecido. Pelo contrário, ele busca exatamente os canais em que a vítima já conversa, trabalha e realiza negócios.
O problema fica ainda mais grave quando o contato apresenta dados verdadeiros ou falsa autoridade. Esse mecanismo também aparece no golpe usando e-mail institucional, no qual elementos legítimos podem aumentar a credibilidade de uma abordagem criminosa.
Brasileiros perderam R$ 21,24 bilhões
O impacto financeiro é expressivo.
A GASA estima que aproximadamente 16,5 milhões de adultos brasileiros perderam dinheiro em golpes, resultando em R$ 21,24 bilhões em prejuízos.
A perda média calculada foi de R$ 1.287,20 por vítima. Entretanto, a mediana ficou em R$ 295,90, o que mostra que perdas maiores puxam a média para cima.
Além disso, 34% das vítimas perderam dinheiro mais de uma vez durante o período analisado. A vítima média sofreu 1,7 episódio com perda financeira.
A velocidade também preocupa. Entre os casos com perda, 26% ocorreram em minutos e outros 16% em horas. Portanto, 42% se desenvolveram em menos de um dia.
Nesse cenário, respostas lentas reduzem as possibilidades de bloquear pagamentos ou rastrear recursos.
Pix e transferências tornam a velocidade decisiva
Entre aqueles que perderam dinheiro, as transferências bancárias tradicionais apareceram em primeiro lugar, com 33%. Já os aplicativos de pagamento instantâneo, grupo que inclui o Pix, representaram 32%.
Somados outros meios classificados como imediatos pelo relatório, 54% transferiram valores utilizando métodos de pagamento imediato.
Isso não transforma o Pix em responsável pelo golpe.
Na verdade, o problema está na combinação entre engenharia social e velocidade financeira. Quando a vítima é convencida a autorizar voluntariamente uma operação, o dinheiro pode atravessar diversas contas antes mesmo que ela perceba o engano.
O golpe também produz dano emocional
O prejuízo não termina na conta bancária.
Segundo o levantamento, 76% das vítimas afirmaram que o golpe provocou impacto moderado ou significativo em seu bem-estar mental.
Além disso, o relatório aponta redução da confiança e maior desconfiança em relação às plataformas digitais.
Outro dado reforça a gravidade: somente 20% daqueles que reportaram suas perdas disseram ter recebido reembolso da organização procurada.
Por isso, combater fraudes também exige atendimento adequado à vítima, canais claros de denúncia e mecanismos rápidos de recuperação.
A revitimização mostra que o criminoso volta
Um dos dados mais preocupantes é o índice de reincidência.
Uma em cada três vítimas que perdeu dinheiro foi enganada novamente.
Isso pode acontecer porque criminosos mantêm informações sobre pessoas que já pagaram, responderam ou demonstraram vulnerabilidade.
Além disso, existe uma categoria específica de fraude chamada golpe de recuperação de dinheiro. Nesse caso, alguém procura uma pessoa que já sofreu prejuízo e promete recuperar os valores mediante novo pagamento ou fornecimento de dados.
Portanto, quem sofreu um golpe precisa aumentar a cautela nas semanas e meses seguintes.
A prevenção ainda depende muito da experiência pessoal
Quase todos os entrevistados, 97%, afirmaram utilizar pelo menos alguma medida para verificar a legitimidade de uma oferta.
Entre as práticas mais comuns estão pesquisar avaliações externas, com 42%, verificar erros de ortografia e gramática, com 40%, analisar o site, com 39%, e aplicar a regra de que algo “bom demais para ser verdade” merece desconfiança, com 38%.
Curiosamente, 26% afirmaram consultar ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT, Gemini, Copilot ou Claude, para ajudar na verificação.
Por outro lado, quando a pesquisa perguntou quais fontes realmente ajudaram a reconhecer ou evitar golpes, experiência pessoal e orientação de amigos ou familiares lideraram, ambas com 37%. Informações de bancos ficaram em 34%.
Já treinamento no trabalho apareceu com apenas 10%, enquanto educação escolar ou universitária alcançou 9%.
Esse contraste merece atenção. A população ainda aprende muito sobre golpes depois de se expor a eles, quando a educação preventiva deveria acontecer antes.
Golpes no Brasil em 2026 exigem responsabilidade compartilhada
O relatório também mostra que não existe uma instituição capaz de resolver o problema isoladamente.
Plataformas online, governo, forças policiais, bancos e empresas de telecomunicações aparecem como partes do ecossistema de proteção. Contudo, os bancos recebem destaque pelo suporte prático, especialmente nos processos de denúncia, educação e bloqueio de pagamentos.
Ao mesmo tempo, a atuação policial aparece mais próxima das expectativas dos entrevistados.
A própria GASA estruturou o relatório a partir de uma visão multissetorial. O evento de lançamento reuniu representantes do setor financeiro, tecnologia, telecomunicações, governo, segurança pública e proteção do consumidor.
Conclusão: o golpe deixou de ser exceção
Os golpes no Brasil em 2026 mostram uma mudança importante na segurança digital.
Quando 81% dos adultos relatam exposição e a estimativa alcança 34,5 bilhões de tentativas anuais, não estamos mais diante de episódios isolados.
Estamos diante de uma indústria de fraude.
Ela utiliza telefone, WhatsApp, e-mail, redes sociais, dados pessoais, engenharia social e pagamentos instantâneos. Além disso, adapta rapidamente suas abordagens conforme os consumidores aprendem a reconhecer os golpes anteriores.
Por isso, a resposta precisa combinar tecnologia, educação, inteligência compartilhada, mecanismos de denúncia, bloqueio financeiro e investigação.
A principal lição da pesquisa talvez seja simples: não basta ensinar a vítima a desconfiar. É necessário construir um ecossistema no qual o golpe encontre obstáculos antes de chegar até ela.
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Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
Advogado e Formado em Segurança Pública com especilização em Perícia Digital Forense e Direito Digital, Marco Aurélio atua como palestrante em Segurança Digital, com foco na prevenção e análise de incidentes cibernéticos, proteção de dados e compliance digital. Criador da M A Segurança Digital e autor do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, dedica-se a traduzir a tecnologia em linguagem jurídica e prática para empresas e profissionais do Direito.
Fonte principal
Global Anti-Scam Alliance (GASA), Relatório O Estado dos Golpes 2026 – Brasil. Pesquisa nacional com 1.170 adultos e coleta realizada entre 16 de março e 13 de abril de 2026.
A GASA também apresenta oficialmente o estudo como uma análise da jornada completa do golpe, desde o primeiro contato até perdas, denúncias e recuperação dos valores.
Uma resposta
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