Os golpes virtuais no Brasil deixaram de ocupar uma posição secundária na criminalidade patrimonial. Em 2025, o país registrou mais de 2,2 milhões de ocorrências de estelionato, o equivalente a aproximadamente 258 casos por hora. Ao mesmo tempo, diversas modalidades tradicionais de roubo apresentaram queda.
Essa transformação não ocorreu por acaso.
Para o criminoso, a internet oferece escala, distância física e menor exposição imediata. Um assalto na rua exige presença no local, aproximação da vítima e risco de flagrante. Já uma fraude digital pode alcançar centenas de pessoas por meio de mensagens, anúncios, perfis falsos e páginas fraudulentas.
Além disso, o golpista pode agir de outra cidade, estado ou país. Por isso, investigar e responsabilizar o autor costuma exigir integração entre polícias, empresas de tecnologia, operadoras, instituições financeiras e provedores de internet.
A frase usada por especialistas resume o problema: o criminoso percebe que é mais fácil ser preso na rua do que na internet.
Por que os golpes virtuais se tornaram tão atraentes?
A lógica é econômica.
Criminosos avaliam, ainda que informalmente, a relação entre risco, esforço e possível retorno. Nesse sentido, o golpe virtual costuma oferecer vantagens em comparação com o roubo presencial.
Primeiro, a fraude pode atingir várias vítimas ao mesmo tempo. Uma campanha de phishing, por exemplo, permite enviar milhares de mensagens com baixo custo.
Além disso, o criminoso não precisa portar arma, abordar alguém ou transportar o objeto roubado. O dinheiro pode seguir diretamente para contas de terceiros, carteiras digitais ou redes de laranjas.
Outro fator importante é o baixo risco de identificação imediata. Enquanto uma câmera pode registrar um assalto, o autor de um golpe pode utilizar:
- chips cadastrados em nome de terceiros;
- contas bancárias de laranjas;
- perfis falsos;
- redes privadas virtuais;
- servidores no exterior;
- documentos vazados;
- dispositivos descartáveis.
Portanto, o crime não desapareceu. Ele apenas mudou de ambiente e passou a explorar a infraestrutura digital da sociedade.
Os números mostram uma mudança no crime patrimonial
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta uma inversão entre roubos e estelionatos. Enquanto várias categorias de roubo recuaram, os golpes cresceram de forma acelerada e se consolidaram como o principal crime patrimonial registrado no país.
Segundo dados divulgados em 2026, o Brasil registrou 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025. Além disso, esse volume representa crescimento acumulado superior a 400% desde 2018.
Por outro lado, diminuíram os registros de roubo de veículos, transeuntes, estabelecimentos comerciais, residências e cargas.
Isso não significa que as ruas ficaram livres da criminalidade. Contudo, demonstra que parte das organizações criminosas percebeu uma oportunidade mais rentável no ambiente digital.
A transformação também acompanha a digitalização da vida cotidiana. Bancos, compras, relacionamentos, documentos, comunicação e serviços públicos migraram para o celular.
Consequentemente, o aparelho passou a concentrar dinheiro, identidade e acesso.
Engenharia social substitui a violência física
No assalto tradicional, o criminoso utiliza força ou ameaça.
No golpe virtual, ele tenta convencer a própria vítima a entregar o dinheiro, a senha ou o código de acesso.
Por isso, a principal arma deixa de ser física e passa a ser psicológica.
A engenharia social explora medo, urgência, autoridade, ganância, solidariedade e confiança. O criminoso pode simular um parente, um banco, uma autoridade pública, uma empresa conhecida ou um advogado.
O artigo Golpe usando e-mail institucional: o alerta da perícia digital mostra como criminosos utilizam endereços oficiais comprometidos, linguagem jurídica e falsas intimações para pressionar empresas e induzir o clique em links maliciosos.
Na prática, o golpista não precisa quebrar a segurança do sistema quando consegue manipular alguém para abrir a porta.
Pix, promessa de lucro e falsa autoridade
O Pix acelerou pagamentos legítimos. No entanto, sua velocidade também favorece fraudes quando a vítima realiza uma transferência sob manipulação.
Um estudo divulgado pela Agência Brasil analisou conteúdos fraudulentos que circularam entre maio de 2024 e abril de 2026. Segundo o levantamento, cerca de um terço dos golpes exigia pagamento exclusivamente por Pix. Além disso, 71% prometiam alguma vantagem financeira e 74% exploravam a credibilidade de marcas ou personalidades conhecidas.
Portanto, três elementos aparecem com frequência:
- promessa de benefício;
- aparência de legitimidade;
- pedido de pagamento imediato.
O criminoso cria uma narrativa convincente e reduz o tempo disponível para reflexão.
Por isso, frases como “pague agora”, “última oportunidade”, “conta bloqueada” e “confirme imediatamente” devem acender o alerta.
Vazamentos de dados alimentam os golpes
Os golpes virtuais também dependem de informação.
Nome, CPF, telefone, endereço, empresa, familiares e dados bancários ajudam o criminoso a personalizar a abordagem.
Quanto mais informações ele possui, mais convincente se torna a fraude.
Nesse contexto, vazamentos e malwares formam uma cadeia de fornecimento criminosa. Bases roubadas circulam em fóruns, grupos e canais clandestinos. Depois, golpistas utilizam esses registros para escolher vítimas e construir narrativas.
O artigo Megavazamento de 24 bilhões de registros: risco e defesa explica como credenciais, cookies e registros capturados por infostealers podem alimentar invasões, sequestros de sessão e campanhas de fraude.
Além disso, o vazamento de dados reduz o trabalho de pesquisa. O criminoso recebe listas organizadas e consegue automatizar contatos, testes de senha e tentativas de acesso.
Inteligência artificial aumenta a escala dos golpes
A inteligência artificial não criou a fraude. Contudo, ela reduziu custos e aumentou a capacidade de produção.
Hoje, criminosos podem utilizar IA para:
- escrever mensagens sem erros;
- adaptar golpes para diferentes públicos;
- traduzir campanhas;
- criar vozes falsas;
- produzir vídeos manipulados;
- gerar imagens de documentos;
- automatizar conversas;
- imitar o estilo de comunicação de uma pessoa.
Consequentemente, sinais antigos, como erros de português ou mensagens malformadas, perderam parte de sua utilidade.
O Banco Central já alerta que vídeos e áudios produzidos por IA podem simular pessoas conhecidas. Por isso, recomenda confirmar pedidos de dinheiro por outro canal antes de realizar qualquer transferência.
A verificação precisa sair da mesma conversa em que surgiu o pedido.
Por que investigar golpes virtuais é tão difícil?
A investigação enfrenta obstáculos técnicos e institucionais.
Primeiro, o dinheiro pode passar rapidamente por várias contas. Além disso, cada conta pode pertencer a uma pessoa diferente, que vendeu, alugou ou perdeu o controle de suas credenciais.
Também existe dispersão geográfica. A vítima pode estar em São Paulo, o número usado no golpe pode pertencer a outro estado e o servidor pode operar fora do país.
Consequentemente, as autoridades precisam solicitar dados a bancos, operadoras e plataformas. Esses pedidos exigem base legal, identificação correta e rapidez.
Outro problema é a preservação da prova.
Mensagens desaparecem, contas mudam de nome e páginas saem do ar. Portanto, o simples print pode não registrar todo o contexto necessário.
O artigo Ataque hacker e fraude: como rastrear desvio de dinheiro mostra como logs, registros bancários, dispositivos, metadados e linhas do tempo ajudam a reconstruir a movimentação criminosa.
A falta de punição estimula novos golpes?
A percepção de baixo risco exerce influência direta.
Quando o criminoso acredita que dificilmente será identificado, ele tende a repetir e ampliar a atividade.
Além disso, estruturas organizadas podem dividir funções. Uma pessoa cria as páginas, outra compra dados, outra conversa com a vítima e uma quarta movimenta o dinheiro.
Assim, cada integrante conhece apenas parte do esquema.
Especialistas defendem maior coordenação nacional em cibersegurança, integração de dados e capacidade técnica para investigar fraudes digitais.
Porém, a resposta não depende apenas da polícia.
Bancos, plataformas, operadoras e empresas de tecnologia precisam identificar comportamentos anômalos, preservar registros e bloquear estruturas reincidentes.
Como o usuário pode se proteger?
Nenhuma medida elimina totalmente o risco. Contudo, algumas práticas reduzem bastante a chance de sucesso do golpe.
Antes de transferir dinheiro, confirme o pedido por ligação ou contato presencial. Além disso, nunca utilize o número enviado na própria mensagem como única forma de validação.
Também adote estas medidas:
- ative autenticação multifator;
- use senhas diferentes em cada serviço;
- limite valores de Pix;
- desconfie de urgência e ameaça;
- não instale aplicativos indicados por desconhecidos;
- não compartilhe códigos recebidos por SMS;
- evite clicar em links de mensagens;
- consulte o endereço oficial da empresa;
- revise dispositivos conectados às contas;
- mantenha sistema e aplicativos atualizados.
Caso o golpe já tenha ocorrido, entre em contato imediatamente com o banco e registre boletim de ocorrência. O Banco Central também recomenda reunir comprovantes e formalizar a reclamação quando necessário.
Empresas também precisam mudar a estratégia
Treinar usuários continua importante. Entretanto, responsabilizar apenas a vítima é insuficiente.
Empresas precisam assumir que funcionários e clientes receberão tentativas de golpe.
Por isso, devem implementar:
- autenticação multifator;
- análise de risco em transações;
- detecção de acessos incomuns;
- proteção de e-mail;
- bloqueio de senhas vazadas;
- confirmação adicional para operações sensíveis;
- plano de resposta a incidentes;
- treinamento contínuo;
- canais rápidos de denúncia.
Além disso, a organização deve preservar evidências desde as primeiras horas.
Uma resposta improvisada pode apagar logs, alterar arquivos e comprometer a investigação.
Conclusão: o crime foi para onde estão o dinheiro e os dados
Os golpes virtuais no Brasil cresceram porque a sociedade concentrou relacionamentos, pagamentos e identidades no ambiente digital.
O criminoso acompanhou essa transformação.
Na internet, ele encontra escala, distância e menor risco imediato. Além disso, pode explorar dados vazados, inteligência artificial e falhas humanas para atingir vítimas em diferentes regiões.
Por isso, enfrentar o problema exige mais do que campanhas genéricas de conscientização.
O país precisa ampliar a investigação técnica, integrar instituições, responsabilizar estruturas criminosas e fortalecer a educação digital.
Ao mesmo tempo, empresas e usuários precisam adotar controles compatíveis com o risco atual.
O golpe virtual pode parecer invisível. Contudo, ele deixa rastros.
A diferença está na capacidade de preservar, analisar e conectar esses vestígios antes que desapareçam.
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Fontes
Estadão: por que ladrões preferem golpes virtuais ao roubo
Fórum Brasileiro de Segurança Pública: Anuário Brasileiro de Segurança Pública
Agência Brasil: promessa de dinheiro fácil e Pix são usados por golpistas
Banco Central: orientações para prevenção e resposta a golpes
Por Marco Aurélio – Perito em Segurança Digital | M A Segurança Digital
Formado em Segurança Pública, Bacharel em Direito e Especialista em Perícia Digital Forense e Direito Digital, Marco Aurélio atua como palestrante em Segurança Digital, com foco na prevenção e análise de incidentes cibernéticos, proteção de dados e compliance digital. Criador da M A Segurança Digital e autor do livro “Filhos Conectados, Pais Preparados”, dedica-se a traduzir a tecnologia em linguagem jurídica e prática para empresas e profissionais do Direito.